CAIA, 3 Março 2009 (PlusNews) - Debaixo de um céu carregado de nuvens e um calor úmido, Mariamo Mucume, 29 anos, arranja-se debaixo de três mantas de algodão, no frágil atrelado duma bicicleta-ambulância, coberto por um toldo de lona azul, enquanto segue para o Hospital Rural de Caia.
“Estou com uma febre forte e calafrios há três dias e estava com dificuldade em me deslocar para o hospital, pois além de carência de transporte estava sem dinheiro para custear a viagem”, disse Mucume, gemendo.
Ela é seropositiva e contraiu malária.
Desde o início de 2007, em Caia, norte da província de Sofala, região central de Moçambique, há uma revolução no transporte de doentes: cinco bicicletas-ambulâncias.
O projecto é dos Serviços Distritais de Saúde e Acção Social de Caia, em parceria com a ONG Consórcio Associações com Moçambique, que trabalha na região desde 2005, sobretudo na área da saúde.
“As vias de acesso em Caia não são boas. A bicicleta é o meio de transporte mais usado na região”, disse Mahomed Riaz Mobaracaly, médico-chefe distrital dos Serviços de Saúde e Acção Social de Caia.
“Quando soubemos da existência de bicicletas-ambulância decidimos apostar na sua introdução para inverter o cenário no transporte de doentes.”
O paciente é colocado no atrelado da bicicleta-ambulância e preso com um cinto de segurança. Após a ligação do atrelado ao selim, o activista monta na bicicleta. Nas laterais vão os familiares do doente, que o acompanham até o hospital.
Mobaracaly, único médico no centro de saúde de Caia – um edifício de telhas vermelhas de zinco e paredes brancas com rodapés cinzentos – afirmou que todos os dias dá entrada um paciente com doenças relacionadas ao HIV.
Com uma população estimada em 115 mil habitantes, Caia tem uma seroprevalência de 21 por cento, enquanto a média nacional é de 16 por cento entre a população adulta.
“Melhoramos muito no transporte de doentes com as bicicletas-ambulâncias. Os doentes já chegam ao hospital em melhores condições, pois não é o mesmo que caminhar a pé mais de 17 quilómetros ou ir de carroça de junta de bois”, disse Mobaracaly.
”Antes era um sacrifício para chegares ao hospital. Algumas vezes seguíamos em carrinhas
de mão e chegávamos lá pior do que estávamos.”
As bicicletas-ambulância são alocadas às comunidades, que coordenam o seu uso. A família geralmente solicita o transporte. Se houver mais de um paciente em necessidade, avalia-se a gravidade do caso, e o que estiver pior é levado primeiro.
A inusitada ambulância chega ao hospital graças a voluntários que se dispõem a pedalar quilómetros incontáveis todos os dias. A comunidade mais distante servida pelas bicicletas fica a 28 quilómetros do Hospital Rural de Caia.
“Precisa ter muito cuidado ao transportar um doente para evitar acidentes. Também requer paciência, pois as viagens são pesadas e pioradas com os buracos nas estradas. Mas felizmente essa inovação ajuda a salvar vidas”, disse o activista e voluntário Norberto Nhanze.
Incentivo à adesão
A introdução de bicicletas-ambulâncias em Caia trouxe um incentivo à aderência aos serviços de saúde pelos pacientes da região, sobretudo os seropositivos.
Por causa das distâncias, muita gente deixava de procurar atendimento médico. Portanto, uma pessoa vivendo com HIV que estivesse com malária ou tuberculose geralmente deixava a doença avançar antes de ir ao hospital.
“O factor transporte retraía os pacientes que vivem longe da unidade sanitária a aderirem aos serviços de saúde. Mas invertemos este quadro, em parte devido à disponibilidade de transporte”, disse Mobaracaly.
Para distâncias que não conseguem ser cobertas por bicicletas, a Aliança Internacional para a Saúde (HAI, em inglês) disponibilizou uma viatura que leva os pacientes em tratamento de volta para casa depois de levantarem os ARVs, em Caia.
A ideia é apoiar as pessoas em tratamento antiretroviral, para que não deixem de levantar os seus comprimidos ou desistam de tomá-los por não terem como buscá-los. O transporte só é disponível para o caminho de volta, não de ida.
“A viatura também leva quem tiver alta, após o internamento”, disse Mobaracaly.
Mucume se lembra dos dias em que essas opções não existiam.
“Antes era um sacrifício para chegares ao hospital. Algumas vezes seguíamos em carrinhas de mão e chegávamos lá pior do que estávamos”, contou ela, que foi levada de bicicleta-ambulância de Murrassa a Caia, percorrendo um total de 17 quilómetros.
Fonte:PlusNews